Há vida no longo prazo

Entrevista publicada no Valor Econômico, publicado no dia 21/00/18, com autorização do Sr. Roberto Texeira.


 

Quando era um jovem economista, ainda em formação, Roberto Teixeira da Costa, hoje com 83 anos, imaginava que seu destino era ser bancário. Ele estagiava no Citibank e pensa aspecto importante da legislação de 1976, que foi criar mecanismos que favorecessem o capital estrangeiro entrar em Bolsa, uma legislação que favorecesse a entrada e a saída, o fluxo de capitais externos, de maneira mais livre para o mercado de ações. O [então] presidente do BC Paulo Lyra era resistente a essa ideia, porque não tinha como controlar a saída de capitais. Acabou-se criando uma legislação que não chegou a ser a legislação dos sonhos, representou uma mudança. O último aspecto foi criar mecanismos institucionais para o mercado. Tinha ficado evidente que a crise especulativa de 1971 fora fundamentada no investidor individual, que buscava lucros imediatos. Era preciso ter base institucional, investidor de longo prazo institucional, porque as seguradoras, que eram praticamente o único investidor institucional, não tinham estímulo a operar no mercado de capitais. Aí se criou base para o investidor institucional no mercado. Por tudo isso, a legislação de 1976 foi um marco.


Valor: Quais foram suas principais conquistas e quais os maiores reveses?

Teixeira da Costa: No começo da CVM encontrei um ambiente propício. Todos entendiam que era fundamental ter um órgão regulador que trouxesse de volta a confiança no mercado. Também foi importante o apoio do Conselho Monetário Nacional e do [então] ministro da Previdência, o Nascimento e Silva [1915-2003], fundamental para a aprovação de uma das resoluções mais importantes da CVM, aquela que obrigou os fundos de pensão a tomar uma posição mínima no mercado de ações. Os fundos de pensão, inicialmente, tiveram leitura negativa, já que estavam investidos em imóveis e títulos públicos, e chega um cara de fora e diz: "Agora você tem que olhar para ações". Com isso, formamos uma base de sustentação do mercado. Digo e repito que a privatização que aconteceu no Brasil, com todos os trancos e barrancos, foi possível por causa da forte presença dos investidores institucionais no mercado.

Valor: Uma questão de governança corporativa, quando não de ética?

Teixeira da Costa: Sempre considerei a ética relevante, porque você não entra no mercado sem a segurança de que está sendo tratado com equidade, que ninguém que opera no mercado está levando vantagem. Por isso, a ética é um dos pilares do desenvolvimento do mercado.


Valor: Qual o papel da autorregulação?


Teixeira da Costa: Dou muita ênfase à autorregulação porque por mais efetivo que seja o órgão regulador, se os membros da comunidade regulada não entenderem a importância do mercado, e eles mesmos serem os principais guardiões do mercado, o mercado não funciona. Não adianta ter sinal de trânsito se tiver que colocar um guarda em cada esquina. Se você quer que o Estado tenha menos participação na economia, é fundamental que as próprias entidades do mercado sejam mais atuantes, policiem melhor sua atuação e também que cuidem de desburocratizar suas operações.


Valor: Inflação e juros, os eternos vilões do mercado de ações, estão nos menores níveis em décadas. O que falta para equiparar o Brasil a, por exemplo, Coreia e China, para ficar nos emergentes?


Teixeira da Costa: Como você pode investir a longo prazo sem confiar no futuro da moeda, que é a referência do mercado? Isso cria a necessidade de taxas de juros muito altas para compensar a insegurança quanto ao futuro. Isso torna inviável o mercado de capital de risco. Quem vai investir sem taxa de retorno que compense o risco de abrir mão da segurança do título do governo? Mil reais investidos no Ibovespa em 2015/2016 tornaram-se R$ 14 mil hoje. Os mesmos R$ 1 mil investidos em CDI transformaram-se em R$ 42 mil. O investimento mais conservador do mercado, com liquidez, com rentabilidade e segurança dos títulos do governo - segurança entre aspas, certo? - deu retorno três vezes maior do que a Bolsa.


Valor: Por causa da influência das taxas de juros no mercado...


Teixeira da Costa: É inegável. Por outro lado, remexendo em antigos papéis, achei uma frase fantástica do [guru de administração de empresas] Peter Drucker [1909-2005]: "Taxas de juros altas minam a confiança, mas baixas taxas de juros não necessariamente a criam". Isso significa que juros baixos são condição necessária, mas não suficiente, para estimular o mercado de capitais. Falando em China e Coreia, existem marcos institucionais relevantes. As taxas de poupança desses países são superiores às do Brasil. A China não tem planos de Previdência. As pessoas poupam 40%, 50% do PIB porque têm que investir para garantir o futuro, o que implica uma visão de longo prazo. Como há suficiente confiança na moeda, conseguem investir para o futuro. Mas também há, como dizem os ingleses, “good reasons for the bad reasons”: os asiáticos têm mentalidade de jogo. Outra coisa que caracterizou esses países, mais especificamente no caso da Coreia, foi a inovação. Por fim, o próprio crescimento econômico. Você não pode imaginar crescimento do mercado de capitais sem crescimento econômico do
país.


Valor: O que o senhor antevê para o futuro para o mercado de capitais do Brasil?

Teixeira da Costa: Continuo não enxergando como o Brasil possa dar salto quantitativo e qualitativo sem mercado de capitais compatível. Por quê? Onde as empresas vão buscar recursos para crescer? O Estado exauriu sua capacidade de investir. O que temos que fazer é desenvolver o mercado, que seja um locus onde as empresas possam buscar recursos, o investidor se sinta protegido por uma regulação que lhe garanta direitos e a poupança, onde possa olhar o futuro baseado na recompensa de um retorno. Quando falo de mercado de longo prazo, não falo exclusivamente do mercado de ações. Há que criar, paralelamente, um
mercado de dívida de longo prazo que seja instrumento para as empresas, porque hoje o mercado de longo prazo está nas mãos das instituições estatais.


Valor: Quais são os problemas críticos do país?


Teixeira da Costa: Um deles é a falta de planejamento estratégico. A questão estratégica é vital. As coisas estão mudando com tal velocidade que a gente não dá conta de acompanhar e me fazem lembrar o que disse o poeta uruguaio Mário Benedetti: "Cuando creíamos tener todas las respuestas, de pronto se cambiaran las preguntas!".